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Recuperação ou renovação de pastagens

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  • Publicado em 06/01/2012

RECUPERAÇÃO OU RENOVAÇÃO DE PASTAGENS
Prof. Dr. BENEVAL ROSA (beneval@vet.ufg.br)
 INTRODUÇÃO 
O Cerrado brasileiro apresenta, atualmente, condições muito favoráveis para a produção e exploração da pecuária em sistemas de pastagem. Estima-se que os pastos cultivados ocupem cerca de 49,5 milhões de hectares, sendo Goiás, o estado com maior área de pastagens cultivadas (14,2 milhões) (SANO et al., 1999). A importância das pastagens pode ser facilmente caracterizada porque constituem a base dos sistemas de produção de bovinos. Na economia, esta importância é expressa pelos valores movimentados de exportação no ano de 2000, que totalizaram uma importância de 755,18 milhões de dólares na balança comercial brasileira (ANUALPEC, 2001).
Sabe-se que a produtividade da pecuária brasileira é muito baixa. Dentre as diversas causas estão o estado de degradação em que se encontra a maioria das pastagens e a estacionalidade que as forrageiras sofrem em função dos meses de estiagem. A degradação sofrida no solo e nas forrageiras pelo manejo inadequado, superpastoreio, invasão de plantas indesejáveis, falta de adaptação, ao meio, de espécies semeadas e perda da fertilidade do solo por falta de adubação, acumulados com os fatores da estacionalidade das forrageiras como, baixa temperatura, densidade pluviométrica insuficiente e luminosidade menor, fazem com que a bovinocultura a pasto, sofra uma sazonalidade nos preços, decorrentes das quedas de produção na estação da seca.
Os benefícios produzidos no verão, com o crescimento das gramíneas promovem a retirada de nutrientes do solo para compor a matéria seca fornecida ao animal. Estima-se que nas pastagens cultivadas, a densidade bovina é em torno de meia unidade animal por hectare, possibilitando a produções na faixa de 100 kg de peso vivo por hectare ano (ESTEVES et al., 1998).
Considerando a importância econômica que as pastagens significam ao Brasil, são necessárias adoções de medidas estratégicas para a recuperação/renovação destas e com isto o aumento da produção de bovinos a pasto por hectare.
  
FATORES QUE MAIS CONTRIBUEM PARA A DEGRADAÇÃO DAS PASTAGENS 
Uma pastagem encontra-se em processo de degradação, quando apresenta perda do vigor e da capacidade de recuperação natural; diminuição, considerável, de sua produtividade potencial nas condições edafo-climáticas e bióticas onde foi implantada; perda da qualidade da forrageira e ocorrência da invasão de espécies indesejáveis, de pragas e de doenças (MACEDO, 1995). O resultado da interação destes fatores afeta diretamente a sustentabilidade do sistema produtivo a pasto. (Spain e Gualdron (1991) citados por Júnior et al. (1994).
A degradação de pastagens está diretamente ligada à degradação do solo. Na Figura 1, está esquematizado a degradação desde o estabelecimento da pastagem até a degradação do solo retratando a queda da sustentabilidade dos recursos naturais (MACEDO, 1995).
Implantação e estabelecimento da pastagem
Manejo e práticas culturais inadequadas (lotações elevadas, cortes sucessivos, excesso de pisoteio etc...)
Queda da fertilidade do solo (não reposição dos nutrientes extraídos)
FASE DE MANUTENÇÃO
_______________________________________________________________________________
Perda de vigor e produtividade das pastagens e exposição do solo (morte de plantas, invasão de plantas indesejáveis)
DEGRADAÇÃO DA PASTAGEM
 ______________________________________________________________________________
Compactações e alterações nas características físicas do solo: estrutura, estabilidade de agregados, densidade global e porosidade.
Queda na taxa de infiltração de água no solo
 Erosão laminar
Erosão de sulcos
Voçorocas
DEGRADAÇÃO DO SOLO
(Fonte: Macedo ,1995) 
Figura 1- Etapas para a degradação do solo

As causas mais importantes da degradação das pastagens podem ser as seguintes (MACEDO, 2002):

a)      Germoplasma inadequado ao local.
b)      Má formação inicial – causada pela ausência ou mau uso de alguns dos itens: práticas de conservação e de preparo do solo; correção da acidez e/ou adubação; sistemas e métodos de semeadura ou de plantio e manejo animal na fase de formação.
c)      Manejo e práticas culturais: uso de fogo como rotina;métodos, épocas e excesso de roçagens; ausência ou uso inadequado de adubação de manutenção.
d)     Ocorrência de pragas, doenças e plantas invasoras.
e)      Manejo animal: excesso de lotação; sistemas inapropriados de pastejo.
f)       Ausência ou aplicação incorreta de práticas de conservação do solo após uso relativo ou uso prolongado de pastejo.
 
O solo é o fator de sustentabilidade da produção das pastagens, e quando ocorre, a sua degradação juntamente com a degradação dos demais recursos naturais têm-se uma elevada queda na produção da forrageira. De acordo com SPERA (1993), a degradação do solo ocorre quando há uma deterioração de suas propriedades, por perda de volume e estrutura por erosão e compactação, assim como perda de fertilidade por erosão ou manejo inadequado. Então, é necessário evitar, principalmente, a degradação do solo com práticas culturais, tais como: adubação, consorciação e manejo animal.
No que se refere à adubação, um elemento muito importante na fertilidade do solo é o fósforo, este é responsável pelo aumento da produção na recuperação de pastagens degradadas. Outro elemento muito importante é o nitrogênio, ele está relacionado ao teor de proteína nas pastagens e conseqüentemente a dieta animal, sendo responsável direto pela produção da forrageira (BARNABÉ, 2001; ROSA et al, 2002). É necessário fazer a reposição de N, a recomendação da aplicação de nitrogênio varia de 50 a 300 kg/ha/ano, variando de acordo com a espécie forrageira. Assim, a dose mais baixa tem sido considerada como mínima para evitar a degradação. Sendo que, doses mais elevadas que a mínima são aconselhadas para incrementos na produtividade da pastagem e quanto maior a dose, maior será a necessidade de parcelamento desta adubação (MONTEIRO et al., 1995).
  
CARACTERÍSTICAS DAS PASTAGENS DEGRADADAS 
A degradação de pastagens é um processo lento e demorado para mostrar os seus efeitos negativos. Muitas vezes a degradação de pastagens pode estar acontecendo em um sistema pastoril sem ser notada por olhos desatentos. O nível de degradação de uma pastagem pode apresentar uma ou várias características que estão ligadas à degradação. Estas características são facilmente observadas se existir a ocorrência de:
§ baixa disponibilidade de forragem com diminuição da produção;
§ as rebrotas não reagem bem à vedação prolongada, mesmo em tempos de condições favoráveis de clima;
§ diminuição da cobertura vegetal, aparecimento do solo;
§ lotação muito baixa para o potencial da forrageira;
§ ganho de peso reduzido para a categoria animal;
§ ocorrência de compactação e erosão, deficiência mineral;
§ surgimento eventual de invasoras e pragas (VIEIRA & KICHEL, 1995).
A queda na fertilidade do solo decorrente do processo de degradação faz com que medidas alternativas sejam adotadas pelos pecuaristas para manter a produção da pastagem. No estabelecimento da pastagem os produtores escolhem uma forrageira com maior potencial. Com o início da degradação, o avanço na perda da fertilidade do solo e a drástica diminuição da produção, fazem com que a troca por uma forrageira menos exigente em fertilidade seja uma alternativa, de se manter a produção “alta” na pastagem.
Um enfoque maior pode ser dado às plantas invasoras no processo de degradação das pastagens. O surgimento de invasoras na pastagem ocasiona uma competição direta da planta invasora com a forrageira, por espaço, luz, água e nutrientes além de ocasionar um comprometimento estético da pastagem, problemas com intoxicação e ferimentos nos animais, hospedeiras alternativas de pragas, moléstias, nematóides, ácaros, plantas parasitas e outros inimigos naturais das plantas forrageiras, (BELOTTO, 1997).
  
TECNOLOGIAS PARA RECUPERAÇÃO 
A recuperação de pastagens é realizada em áreas onde esteja ou já tenha ocorrido à degradação. Consiste em uma prática viável economicamente, dependente do grau de degradação e de suas causas, onde não se substitui à forrageira do sistema degradado. (VIEIRA & KICHEL, 1995).
Existem dois métodos para recuperação das pastagens:
§           direto – sem utilização da agricultura;
§           indireto- com utilização da agricultura.
A recuperação das pastagens degradadas pelo sistema de recuperação direta consiste no uso de práticas voltadas, exclusivamente, para a recuperação rápida da capacidade produtiva das pastagens, entretanto, a sua produção deverá persistir ao longo do tempo, tendo o manejo como papel fundamental no equilíbrio solo-planta-animal.
Neste sistema não há utilização de culturas anuais, como soja, milho, arroz, etc, sendo indicada para pecuaristas, com as seguintes condições:
§ indisponibilidade financeira;
§ necessidade de recuperação em curto prazo;
§ menor risco na recuperação da pastagem;
§ condições edafo-climáticas desfavoráveis para a agricultura;
§ indisponibilidade de infra-estrutura agrícola;
§ indisposição natural para a agricultura (VIEIRA & KICHEL, 1995).
 
A recuperação direta pode ser realizada de três formas: recuperação direta sem a destruição da vegetação, recuperação direta com destruição parcial da vegetação e recuperação direta com destruição total da vegetação. A escolha por uma destas três formas dependerá do estágio de degradação da pastagem e do nível de produção desejada com a recuperação. 
a) RECUPERAÇÃO DIRETA SEM A DESTRUIÇÃO DA VEGETAÇÃO 
Este sistema é indicado onde o estágio de degradação ainda é inicial e causado por manejo inadequado e com baixa produção da forrageira, devido à deficiência mineral. A pastagem a ser recuperada deve ter bom estande de plantas, boa cobertura do solo e pequena ou nenhuma presença de plantas invasoras. Consiste na adição, por cobertura, de nutrientes necessários para o desenvolvimento da forrageira, na época ideal, seguido de manejo correto (ZIMMER et al., 2001).
Para recuperar uma pastagem de Brachiaria Brizantha cv. Marandu com oito anos de uso, BARNABÉ (2001), avaliou os seguintes tratamentos: T1 = testemunha (sem adubação química e sem aplicação de dejetos), T2 = adubação química com 80 kg de N na forma de sulfato de amônio, 40 kg de P2O5 na forma de superfosfato simples e 50 kg de K2O na forma de cloreto de potássio; T3 = 50 m³ de dejetos/ha; T4 = 100 m³ de dejetos/ha e T5 = 150 m³ de dejetos/há, após a aplicação superficial de calcário, visando à correção da saturação em bases para 45%. Os resultados obtidos estão expressos na Tabela 1. Observa-se, pelos dados, que a aplicação de 150 m³ de dejetos de suínos em substituição à adubação química apresentou os melhores resultados. Ficou, também, evidente a importância da reposição de nutrientes no solo tanto pela adubação química quanto pela aplicação dos dejetos líquidos de suínos quando comparado com a testemunha, que não recebeu nenhuma adubação. Deve-se ressaltar, também, a importância da adubação com nitrogênio na recuperação da pastagem. 
Tabela 1. Produção de matéria seca (MS) e proteína bruta (PB), acumulada no período de 14/11/99 a 23/04/2000, da Brachiaria Brizantha cv. Marandu. Goiânia-GO.
Tratamentos
Matéria seca(MS) (kg/ha)
Proteína bruta (PB) (kg/ha)
T1
2.495 d
188,7 c
T2
5.824 a (+133%)
490,7 b
T3
3.541 c (+42%)
259,4 c
T4
5.223 b (+109%)
466,3 b
T5
6.390 a (+156%)
624,4 a
C.V.(%)
5,67
7,92
Médias seguidas de letras diferentes nas colunas, diferem entre si pelo Teste de Tukey(P<0,05). 
Os valores entre parênteses significam o aumento em relação à testemunha (T1)
Fonte: BARNABÉ (2001). 
Trabalhando na mesma linha de pesquisa, ROSA et al. (2002), em experimento utilizando dejetos de suínos como fonte de NPK para a recuperação do capim braquiarão em Goiânia, em pastagem já implantada com seis anos de uso, cujo resultado da análise de solo foi: Ca=0,70 e Mg=0,20 cmol/dm³, P=0,80 e K=42,5 mg/dm³, CTC=6,34%, MO=2,90% e pH (H2O)=5,3, sendo feita uma correção com 2,3 t/ha com calcário dolomítico com PRNT=92,10% e 590 kg de Gesso Agrícola/ha, aplicados superficialmente sem incorporação. Os tratamentos testados foram: T1= reposição de 3,5 kg/ha de P2O5 e 18 kg/ha de K2O/t MS de forragem colhida/ha, T2 = reposição de 3,5 kg/ha de P2O5 e 18 kg/ha de K2O/t MS/ha + 160 de N/ha, T3 = 100 m³ de dejetos líquidos de suínos/ha, T4 = 150 m³ de dejetos líquidos de suínos/ha, T5 = 200 m³ de dejetos líquidos de suínos/ha. As aplicações dos dejetos, bem como de N foram divididas em 4 vezes com intervalos de 35 dias. No corte de uniformização foi feita uma adubação básica nos tratamentos T1 e T2 com 450 kg de Superfosfato simples/ha, 35 kg de Cloreto de Potássio/ha e 40 de FTE BR-16/ha. Todos os insumos foram aplicados superficialmente sem incorporação. Os dejetos de suínos eram provenientes de uma granja de terminação, onde os animais eram alimentados com ração balanceada. Os dejetos eram constituídos de fezes, restos de rações, água de vazamento dos bebedouros e da água de limpeza da granja e permaneciam armazenados por 45 dias, em lagoas, até sua utilização. Para a avaliação da forragem foram realizados cortes a cada 35 dias a 20 cm de altura do solo. Os dados da Tabela 2 demonstram que a utilização de dejetos de suínos como fonte de NPK, para o a recuperação do pasto de capim Braquiarão, propiciou um considerável aumento de produção, sendo esta prática viável, quando possível, na substituição de fertilizantes.
 
Tabela 2. Rendimento de matéria seca acumulada (kg/ha), teores médios de proteína bruta (PB), de fibra em detergente neutro (FDN), de fibra em detergente ácido (FDA) e de hemicelulose (HEM) (% na MS) da Brachiaria Brizantha Stapf cv. Marandu no período 20/01 a 05/05/2001 em Goiânia-GO.
 
Composição bromatológica(% na MS)
Tratamentos
MS (kg/ha)a
PB
FDN
FDA
HEM
PK + Micronutrientes
3460 d
8,14 b
71,53 a
39,39 a
32,14 a
NPK + Micronutrientes
8049 a
9,44 a
70,17 a
39,01 a
31,16 a
100 m³/ha dejetos líquidos de suínos
4996 c
8,40 b
69,69 a
39,11 a
30,58 a
150 m³/ha dejetos líquidos de suínos
6050 b
8,450 b
69,49 a
39,67 a
29,74 a
200 m³/ha dejetos líquidos de suínos
8518 a
8,64 b
69,26 a
39,14 a
30,12 a
C.V.(%)
4,88
3,83
1,83
2,58
3,87
* Médias seguidas de letras diferentes nas colunas, diferem entre si pelo Teste de Tukey (P<0,05).
aSoma acumulada de três cortes
Fonte: ROSA et al. (2002).
            Pelos dados, fica clara a importância do nitrogênio, quando se compara o tratamento com a aplicação de NPK com a testemunha que recebeu apenas PK, bem como os tratamentos referentes aos dejetos de suíno que foram utilizados como fonte de NPK.
 
b) RECUPERAÇÃO DIRETA COM DESTRUIÇÃO PARCIAL DA VEGETAÇÃO 
Este sistema é indicado para um estágio intermediário de degradação em pastagens mal formadas onde, além do manejo inadequado e da baixa produção, há a ocorrência de compactação do solo. Para a recuperação é feita a aplicação dos nutrientes necessários, seguidos do uso de subsolador ou escarificador. È obrigatória à vedação da pastagem por, no mínimo, 30 dias. Pode ser acrescentada a introdução de leguminosas no preparo do solo (ZIMMER et al., 2001).
Em trabalho realizado por SOARES FILHO et al. (1992), na região de Marília–SP, em solo podzólico vermelho amarelo distrófico, avaliando os efeitos de estratégias de recuperação de pastagens de B. decumbens degradada com 10 anos de uso. Os tratamentos utilizados foram: T1 = testemunha; T2 = adubação com macro e micronutrientes + N; T3 = gradagem e T4 = gradagem + adubação com macro e micronutrientes + N. Foram adicionados 200 kg de sulfato de amônia, em duas épocas do ano no tratamento T2. Na Tabela 3, estão os dados de produção de matéria seca nos diferentes tratamentos em 2 anos de avaliação. A produção de matéria seca no tratamento T2 foi superior neste período. A gradagem, T3, foi inferior no período seco. 
Tabela 3. Produção acumulada de matéria seca da parte aérea (t/ha) de Brachiaria decumbens sob o efeito de quatro tratamentos e sete épocas de avaliação no 1 º ano(1987/88), e nove épocas no 2º ano (1988/89) em Marília-SP.
Tratamentos
Produção acumulada (t/ha)
Estação
Seca (t/ha)
Águas (t/ha)
1º ano
T1= testemunha
4,4 a
1,6 a
2,8 a
T2= Macro/micronutrientes + nitrogênio (N)
4,8 a
1,6 a
3,2 a
T3= Gradagem
3,3 a
0,8 b
2,4 a
T4= Gradagem + Macro/micronutrientes - N
5,3 a
2,0 a
3,3 a
2º ano
T1= testemunha
8,3 b
1,1 a
7,2 b
T2= Macro/micronutrientes + N
13,1 a
1,1 a
12,0 a
T3= Gradagem
7,3 b
0,9 b
6,4 b
T4= Gradagem + Macro/micronutrientes - N
8,5 b
1,0 a
7,5 b
Médias seguidas de mesma letra, dentro de cada coluna e de cada ano, não diferem entre si ao nível de 5% de significânc